BIOCRONICAS
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E L I S A

“Descontinuadamente, a melancolia instala-se em mim e diz-me que a vida não existe. Sou, fantoche nas mãos de quem me usa e abusa continuadamente. Utilidade física de mulher.Efeméride de sentimentos irreais. Tempestades da minha vida melancólica. Melancolias de tempestade..”

As tuas palavras ditas num sussurro da voz, a cabeça descaída sobre o peito, onde as duas nuances de carne suculenta, sedutora, oscilam com o arfar da tua respiração Um arfar lento e ao mesmo tempo inquieto do turbilhão que te agita.

O meu olhar parado, sem saber o que dizer, o que fazer, poisado sobre o teu corpo de menina que sendo já mulher, é ainda frágil, de altura mediana, os teus cabelos loiros escuros quase castanhos, uma cor que me fascina, pelo tom, pelo brilho, pelo que esconde , e a cor dos olhos, castanhos que me persegue desde tempos. A tua face descorada sem retorno de vida na pele clara..
“ Elisa. Melancolia não.A vida é uma realidade. Está dentro de ti.
Não podes deixar-te abusar. Fazes-me imaginar que és vitima de cenas marginais, e eu quero ajudar-te, a ti. Deliras em melancolia, e não deves.Amiga, estás simplesmente a brincar com as palavras?
Se não estás, diz-me porque queres deixar-te ir? Se tudo em ti é um mundo em explosão de conhecimento, de humanidade para os que sofrem, de alegria à espera duma nesga para se evadir”
Algo do que eu disse te despertou da letargia. Levantaste a cabeça e pude ver os teus olhos enevoados, refulgindo de uma ausência estranha do teu corpo. Como se a alma tivesse descolado, e te observasse do lado de fora de ti. Olhos sem vida à espera que volte.

“Todos temos uma criança dentro de nós, eu sou da opinião que homens e mulheres são iguais na sua essência, o que os distingue é a forma de se expressarem...Perdoa-me por te dizer desta forma, mas como mulher não posso reprimir a criança/adolescente que há em mim e este é o meu espaço, que utilizo para isso mesmo. Mas percebo a tua visão dos pensamentos femininos, mulheres em crises de adolescência eterna. Porque vieste? Se bem que eu gosto de receber visitas construtivas.”

“ Eu gosto de poesia. E quero, talvez, desvendar a epopeia que escreveste dentro de ti.”

As palavras saíram-me, sem aviso nem contenção. À medida que se soltavam eu via que estavam foram de contexto, que não era poesia o teu estado de anemia sensitiva. Os teus lábios, Elisa!...

A tarde esvaia-se na monotonia das horas, acompanhando o sol na sua trajectória rumo ao limite do horizonte. As águas mansas do rio fazem um chap chap chap, insistente de encontro à muralha inclinada. Estamos sentados no chão rés à estrada e não há vultos de gente em volta de nós.

É o teu espaço de encontro com os teus fantasma e o que julgas restar de ti. Pego na tua mão e vejo como é delicada e tu deixas. Estão frias as tuas mãos. E falas...

“ Perdoa-me o facto de ter estado ausente tanto tempo. A vida, o trabalho e as pessoas que me rodeiam por vezes consomem-me de tal forma que nem me lembro de mim nem das minhas coisas...Comove-me a tua preocupação para comigo, Obrigada.
Estou em falta para contigo também por causa daquele trabalhinho que fiquei de fazer e nunca mais o consegui acabar. Desculpa.”

Os teus olhos, Elisa, tão dóceis. Tão bonita que te vejo. Tanto que me dói. E me pergunto desde a primeira vez que falámos, porque insistes em guardar só para ti os traumas que te acompanham desde a infância, pergunto a mim como se eu o soubesse e imagino o sufoco, a bola descomunal que te rareia o ar na garganta em momentos de maior evocação, quando se te torna impossivel calcar mais fundo, no limite do todo. E vejo que sorris e como é belo o teu sorriso e dizes com um ar que regressa de uma ausência que parecia infinita e se estancou de súbito, em sintonia com o ocaso, o sol deixando um rasto de luz alaranjado

“ Num pôr do sol descontinuado, duas pessoas sem nome, dois seres que se olham. O tempo não parou, o tempo não existe. E estranhamente sente-se a felicidade num sorriso descontinuado.”

Eu disse apenas:

“ É belo. Estranhamente belo.”

E é como se os raios alaranjados que o sol expande em toda a sua magnifica absorção da noite te tocasse as faces claras e lhes desse um tom de vida. Estás com um ar mais decidido, levantas os braços como que a afastar resquícios maléficos da tristeza doentia que te apoquentava o sentir. E a tua voz soa-me firme:

“ A vida não é fácil para ninguém e todos temos os nossos momentos altos e baixos...brinco com as palavras sim, ajudam-me a expressar o que sinto...talvez brinque com o que sinto.Neste momento encontro-me numa daquelas fases menos positivas da vida, um ser em crise interior..talvez a culpa seja minha...A melancolia faz parte de mim. Se acreditares em Astrologia talvez possas culpar os Astros.. Estou em crise interna, talvez lhe chame solidão..abusam de mim quando sabem como derreter o meu coração para a seguir apunhalá-lo...Durante toda a minha vida tive momentos de felicidade tão efémera que sempre que me sinto assim sei que alguma tempestade se abaterá, pelo menos, nos meus sentimentos.”

Soltam~se de ti, do âmago do teu ser, corpo e alma enlaçados em busca da harmonia que te devolva o sentido que procuras, os desabafos em desagravo da tua consciência ou de outros que assumes como tua. E eu ouço em silêncio a melodia suave e terna da tua voz doce e quente de mulher menina.

“ Num dia descontinuado, em que nem faz chuva nem faz sol, recordo o passado e o que passei...Reencontro um amor antigo que me faz sorrir perante o presente e que de repente gostaria que fizesse parte do futuro...A vida prega algumas partidas e rasteiras..só não sei como dar volta a isso.

Num dia descontinuado, em que nem faz chuva nem faz sol, quero agarrar aqueles momentos de sorrisos e torna-los num abraço de amizade eterno.”

E tens um nome lindo que deveria ter -te induzido a melhores marés.Mas vieste e não imaginas a alegria que inundou a minha alma. Não sou mais um a querer abusar da bondade do teu coração. Quero ser só teu amigo, tentar entender porque sofres, tentar ser uma estaca, um cajado onde possas sempre apoiar-te, mas um cajado que fala, que ri, que pode sorrir se tu sorrires, que pode ouvir-te e chorar contigo sem te pedir nada em troca. E digo-te, contagiado pela tua fluidez:“ Todos temos na verdade fases menos positivas no decorrer das nossas vidas. Eu não sou uma excepção. Não sofri de mal de amores, mas de amigos, de punhaladas da vida, como se a vida fosse gente, como se a vida não fosse um reflexo de nós.

E acredita, a felicidade são efémeros momentos que perduram em nós. Mas nós, a nossa confiança em nós, o nosso amor a nós, a nossa esperança de nós, é o momento mais belo de felicidade, porque nos permite enfrentar todas as tempestades.

Não culpes os astros, não te culpes. Não há culpados. Somos todos vitimas da mesma pressão cósmica e temos que nos tornar disponíveis para entender, para ouvir o nosso interior, a alma pura, sem enganos.. Mas queria tanto conhecer-te. olhar os teus olhos. Sorrir para o teu sorriso. Soltar de ti a tua alma que alguém ou tu própria amordaçou.

Elisa! Sorri, amiga. Diz não à melancolia. Fala-me. Diz disparates, arrasa o mundo, os que te usaram e te feriram, arrasa-te porque o permitiste. Se é tempestade que seja, que venha de uma vez, deixa-me amparar os teus ombros.Quando passar, virá uma grande bonança...”

Levantaste-te e surpreendentemente deste-me um beijo em cada face, um beijo quente e os teus lábios sorriram iluminando o teu rosto, realçando a beleza das tuas feições da penumbra que descera sobre nós. Estás bela, Elisa, e uma paz diáfana percorre o meu corpo e sinto que a tuas mãos ganharam calor, apesar da noite fresca que se estendeu sobre o mundo à nossa volta e nós, envoltos como que num halo enigmático, amantes da alma das palavras que dizemos, e dizes:

“ Só esbocei este sorriso, olhos nos olhos, em frente do teu rosto, depois de ler no teu olhar, o quanto és verdadeiro...normalmente quando me olho ao espelho, quando acabo de acordar o sentimento é mais de susto...
Gosto das tuas palavras, nunca são de mais e por isso não me canso delas..apesar de viver acompanhada, a minha solidão é mais 'psicológica'...hoje, há quanto tempo estamos aqui?, agora estou melhor...o meu humor é muito oscilante e hoje, neste momento, sem razão aparente, ou por uma forte razão, estou num dia sim...e ainda há pouco quase desfalecia.
Obrigada pelas tuas palavras. Voltaremos a falar.

É tarde, falaste-me que trabalhas por turnos e dizes que não tens tempo para jantar, que comes algo num intervalo, numa descontinuação do serviço que é exigente. O teu corpo franzino ganhou força de gigante, envolves-me num abraço forte, entras no carro e partes devagar, como se quisesses ficar...




nota - 1 " o texto é pura ficção,qualquer semelhança de nomes é pura coincidência."


NOTA - 2

É o que me proponho. Escrever sobre vidas anónimas que valem as luzes da ribalta ou a fixação histórica e que traduzem a essência de um povo. Primeiro de uma família. Primeiro ainda, ou antes de tudo, a essência de um homem, de uma mulher.

Escreverei por encomenda, preços de acordo com extensão e pesquisa de documentação. Mas com a paixão que o percurso proposto me suscitar.

Aguardo a vossa proposta.



J.R.G.



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